No passado sábado, 8 de Outubro, realizou-se a conhecida “Vindima do Ferreira”, a maior do concelho, que este ano juntou 80 pessoas em redor de uma tradição centenária nos lugares de Bouças e S.Tiago de Cepães.

José Ferreira de Melo, proprietário rural, herdeiro desta grande vindima que faz questão de manter o mais tradicional possível, com as incontornáveis exigências de uma modernidade que, aos poucos, vai apagando velhos hábitos de uma ruralidade quase perdida.

 

De manhã, bem cedo, os vindimadores, todos amigos do “patrão”, chegam ao local de encontro; “matam o bicho” e pegam nas escadas de madeira, algumas com mais de 10 passadas, e nas cestas de vime que ao grito “torna” descem e sobem num vai e vem ritmado pelo desembaraço das mulheres que, em baixo, despejam as uvas para seguirem para o lagar em tratores.

 

Dependurados nas videiras de enforcado, cerca de 60 homens colheram, separadamente, os cachos de uvas tintas e brancas. Pelo meio surgiram as brincadeiras e a boa disposição própria de um ambiente de grande camaradagem.

 

Pelas 10 da manhã, no campo do alpendre, o trabalho é interrompido para uma merenda que, orgulhosamente, o “patrão” transporta na sua camioneta.

Ao som da concertina, do tambor e das improvisadas cantadeiras, a farta merenda revigorou os homens e mulheres que ainda tinham uma longa jornada por cumprir.

 

Feita a habitual fotografia do grupo a colheita prosseguiu até à hora de almoço que, invariavelmente acontece na casa da família Ferreira.

Numa extensa mesa foi servido o repasto cozinhado a preceito e a lenha pelas sábias mãos da “patroa” e da sua filha.

 

Este ano, para a vindima, o Ferreira abateu uma vitela, um porco e dois cabritos, animais criados nos seus campos.

Já no final do almoço, um grupo de elementos do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Cepães animou a digestão com uma actuação na eira da casa, seguindo depois para os campos onde, no meio da vindima, dançou e cantou ao som das concertinas.

 

A colheita deste ano terminou e o ciclo do vinho prosseguiu no lagar com a pisada. Desta vez os tanques de pedra, com capacidade para 11 pipas, não chegaram para receber uma colheita abundante que ainda encheu quatro dornas.

O Ferreira não escondeu o seu contentamento: “Foi uma boa colheita. Não esperava tanto, mas Deus e os meus Santos estão sempre comigo”, exclamou.

Já com o sol baixo, tornados à eira a festa continuou com um jantar para 80 comensais, animados por modas antigas que a memória conservou, para regalo dos protagonistas de mais uma vindima bem-sucedida que, invariavelmente, só terminou com o lavar dos cestos.

 

Jesus Martinho