“Esta pessoa não me inspira confiança!”

A qualidade dos nossos relacionamentos interpessoais contribui amplamente para o nosso bem-estar emocional. Esses relacionamentos, a forma como interagimos com o outro e propiciamos ou não abertura para essa mesma interação está dependente de um conjunto de fatores.

Já todos nós ouvimos expressões como “a primeira impressão é que conta” e “tenho que causar uma boa impressão”. Todos nós já sentimos a pressão para o fazer, desde uma entrevista de emprego ou jantar de negócios, até momentos mais pessoais, como um encontro.

E como criamos uma “ impressão” sobre alguém?

A avaliação dos outros e daquilo que nos rodeia ocorre de forma inconsciente e é uma função adaptativa do ser humano. Isto acontece porque estamos constantemente a receber estímulos e somos incapazes de os processar e analisar todas as informações recebidas.

Para fazer face a isto, de forma inconsciente, e com base nas nossas caraterísticas e experiências anteriores inserimos os outros em categorias. “Interpretamo-los” com base nas suas caraterísticas físicas, verbais e comportamentais (aparência física, voz, atitudes, gestos) e com base nas nossas experiências passadas reais ou imaginárias.

O que significa isto na prática?

Significa que podemos numa entrevista de emprego ficar em desvantagem em relação a outro candidato se o entrevistador não tiver o cuidado de refletir sobre estes fenómenos. Se a sua valorização de uns atributos em prejuízo de outros ditar a escolha final e este permitir que a influência pessoal seja decisiva, estamos perante um resultado prático deste efeito.

Vamos pensar um pouco.

Duas pessoas, uma que consideramos atraente e outra cujo aspeto não desperta tanto o nosso interesse. E se tivéssemos que atribuir uma caraterística como “ser confiável”, ou outras caraterísticas positivas, iriamos atribuir a qual das duas? Acho que a resposta foi consensual, porque a tendência é confirmar as nossas expetativas em relação à opinião que criamos sobre a pessoa. Com base numa caraterística positiva tendemos a atribuir novas caraterísticas positivas que podem em nada estar associadas e não corresponder à realidade.  Num exemplo concreto, se avaliarmos inicialmente alguém como “sincero”, temos tendência para lhe associar outras características positivas como a simpatia ou a honestidade.

Estas teorias que criamos acerca do outro são muito resistentes à mudança. Vamos sempre procurar confirmar a nossa opinião, procurar informação consistente ou ações confirmatórias. Uma vez formada a impressão sobre o outro esta será então a base para os nossos julgamentos e comportamentos.

Isto possui uma utilidade adaptativa para o ser humano, como já referido.

Os nossos medos, necessidades, permitem que em poucos segundos avaliemos uma pessoa (ou situação) como perigosa e permitem que a nossa reação a isso seja feita quase instantaneamente. Isto não significa no entanto que essa avaliação subjetiva seja a correta.

Imaginem agora duas pessoas que façam parte do vosso quotidiano.

Uma delas será alguém com quem se identificam, uma pessoa que consideram simpática, e a outra alguém cuja primeira impressão não foi positiva. Imaginem que por motivos profissionais iriam reunir individualmente com cada uma dessas pessoas e houve um atraso em comparecer no local combinado. O que provavelmente vai acontecer é que em relação à pessoa que consideramos como simpática (e por acréscimo já associamos a outras caraterísticas positivas como “confiável”) vamos justificar o atraso com motivos como “deve ter acontecido alguma coisa”, “certamente terá uma boa desculpa”. Em relação à outra pessoa, o mais provável é que os nossos pensamentos nos levem para afirmações algo diferentes como “já sabia que isto ia acontecer”, “já estava mesmo a ver que não vinha, não me costumo enganar em relação às pessoas”. Esta situação, apesar de hipotética, relata aquilo que inconscientemente fazemos no nosso dia-a-dia na busca de confirmação para as impressões que formamos sobre os outros.

É necessário que cada um de nós tenha a sensibilidade de reconhecer os processos internos e inconscientes que orientam o nosso comportamento. É necessário que a compreensão e o respeito pelo outro seja com base na sua individualidade. Devemos estar predispostos a criar e estabelecer relações interpessoais de qualidade e desenvolver de forma consciente as nossas capacidades comunicativas, pessoais e sociais. Isto trará melhorias significativas aos nossos relacionamentos e naturalmente ao nosso bem-estar pessoal.

O psicólogo poderá mais uma vez ser o seu aliado no treino destas e de muitas outras competências.

 

 

 

 

Inferimos sobre o outro coisas como a profissão, se é ou não confiável, o seu nível socioeconómico, se é inteligente, (…)

Vamos lá fazer um pequeno teste.

 

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Flávia Freitas Fernandes

Psicóloga Clínica e da Saúde, membro efetivo Ordem dos Psicólogos Portugueses, cédula profissional número 20133