Amor e uma cabana

A violência só se constituiu como um problema social específico em meados do século passado, e desde aí, a violência conjugal tem sido alvo de uma crescente atenção social e científica.

O papel das mulheres na sociedade e as diferenças de género que sempre se fizeram sentir propiciam por vezes a perpetuação de dinâmicas violentas e o assumir do papel de vítima como uma imposição social.

 

O que é a violência: o primeiro entrave

Quando falamos em violência devemos assumir logo à partida que esta pode apresentar-se sobre diversas formas, nomeadamente ao nível emocional, social e sexual.

Está completamente errado assumir que violência se refere unicamente a situações físicas. A violência psicológica é, por exemplo, das mais prevalentes, e além disso a mais difícil de definir e identificar. Esta progride muitas vezes sem reconhecimento e pode irromper posteriormente na forma de violência física.

 

Violência doméstica: um problema complexo!

O mal é-nos usualmente apresentado sobre a forma de um estranho.

Quando esse estranho é na verdade alguém de quem gostamos e com quem mantemos uma relação o caso torna-se mais complexo. É-nos difícil aceitar que as ligações afetivas no seio familiar não promovam a proteção dos seus membros e pelo contrário levem à “destruição” dos mesmos.

 

Fatores de risco associados à violência doméstica

De acordo com a Teoria da Aprendizagem Social de Bandura a maior parte dos comportamentos humanos são adquiridos através da instrução direta e da observação dos comportamentos das outras pessoas.

Sendo a família o agente de socialização primário das nossas crianças, não é difícil que compreendamos que a violência se perpetue ao longo das gerações. Alguns autores apontam mesmo a violência durante a infância como um dos fatores de risco mais significativos, mas obviamente não existe aqui uma relação linear.

As competências ineficazes de resolução de problemas, as ineficientes competências de comunicação interpessoal e a baixa autoestima são outros dos fatores que potenciam e mantêm os ciclos de violência. Como tal, porque não intervir preventivamente?

 

A violência no namoro

Tal como na violência marital, a violência no namoro pode traduzir-se num impacto significativo para a vítima, resultando em danos diversos a curto e a longo prazo como problemas do comportamento alimentar, stress pós-traumático e perturbações emocionais.

A violência no namoro não é um fenómeno raro e é um importante preditor da violência conjugal. Os casamentos abusivos são por norma precedidos de relações violentas e caraterizadas por estratégias de controlo e restrição da autonomia.

Um relacionamento é algo maravilhoso (ou pelo menos deveria ser) entre duas pessoas atraídas física e psicologicamente, unidas pela vontade de estarem juntas e partilharem novas experiências. Uma relação pode implicar um ajuste consentido entre as partes, interferir nos horários e na disponibilidade de cada um. Isto porque ambos querem e desfrutam positivamente do tempo passado em conjunto.

 

E quando as alterações não são mútuas?

Muitas das vezes as alterações que podemos considerar normais não são tão normais quanto isso. O que ocorre é uma desigualdade de poder e uma sensação de posse em relação ao outro.

Falemos do isolamento. O isolamento imposto muitas vezes de forma encoberta pelo parceiro durante o namoro é um importante fator de risco para a violência. O isolamento não é muitas vezes reconhecido pelos jovens e por aqueles que os rodeiam.

A falta de experiência relacional associada à vontade de afirmação perante a sociedade e a dependência emocional criada são impeditivos do reconhecimento de uma situação de violência no namoro. Não em menos casos estão em falta ou são ineficazes os recursos para gerir e resolver a situação quando esta ocorre.

Alguns comportamentos utilizados como forma de isolamento são:

  • Ser obrigada/o a conviver ou estar junto dos amigos apenas na presença do namorado/a;
  • Estar obrigado a ceder o telemóvel e proporcionar o acesso, por exemplo, às contas das redes sociais;
  • Extinguir o contacto com o sexo oposto;
  • Fornecer informações detalhadas da rotina diária, estar sempre contactável e disponível;

Não confundas ciúme com amor, valoriza-te, pede ajuda aos teus amigos e familiares ou procura ajuda especializada.

Uma relação não deve continuar se as situações negativas se sobrepõem às positivas e se estiver presente o medo e a insegurança.

São inquietantes os níveis de violência na intimidade juvenil o que justifica a implementação e avaliação da eficácia de programas de prevenção primária da violência e promoção de competências de vida junto dos nossos adolescentes.

 

Flávia Freitas Fernandes

Psicóloga Clínica e da Saúde, membro efetivo Ordem dos Psicólogos Portugueses, cédula profissional número 20133