A problemática associada ao elevado consumo de substâncias nas crianças tem sido cada vez mais discutida. E a questão que coloco é: Estamos nós a permitir que as nossas crianças sejam exatamente isso, crianças?

Ser criança é (ou pelo menos deveria ser) ter uma fonte inesgotável de energia. É conseguir depois de um dia na escola, com atividades físicas e recreios turbulentos, ter ainda energia suficiente para a prática de um desporto extracurricular. Ser criança é conseguir também depois disso, virar toda a casa do avesso e esgotar a pouca energia e paciência que por vezes nos resta depois de um exaustivo dia de trabalho.

Será o meu filho hiperativo?

A Perturbação de Hiperatividade com Défice da Atenção é uma perturbação caraterizada por um conjunto significativo de alterações comportamentais. A presença de sintomas como impulsividade, agitação motora e desatenção condicionam significativamente o desempenho da criança nos diversos contextos de vida e tendem a causar dificuldades no relacionamento com os pares, dificuldades de aprendizagem, dificuldade no cumprimento de regras, e sem dúvida, imensas dores de cabeça a pais, professores e cuidadores.

Todas as crianças são então hiperativas?

Uma avaliação correta é fundamental. A Perturbação de Hiperatividade com Défice da Atenção é facilmente confundida com problemas comportamentais normativos e derivados de estratégias inadequadas e práticas parentais desajustadas.

Apesar de existir atualmente um interesse crescente acerca da problemática em questão, não só da parte dos profissionais de saúde mas também de professores (que cada vez mais possuem competências para identificar e sinalizar precocemente estas situações), a verdade é que tudo isto é ainda insuficiente e há com mais frequência do que a desejada crianças e adolescentes erroneamente diagnosticados.

Que implicações tem isto na vida das crianças e da família em geral?

Esta perturbação afeta negativamente não só o desempenho académico mas também os relacionamentos familiar e social e o ajustamento psicossocial. Além disso, em muitos dos casos existe associação com outras problemáticas como por exemplo perturbações do humor, problemas ao nível do comportamento, depressão e ansiedade.

Não é difícil compreender então as implicações para a dinâmica familiar, e claro, a necessidade de uma intervenção adequada.

Uma das modalidades interventivas prende-se com a prática farmacológica. Logo neste aspeto podemos concluir que a utilização medicamentosa na ausência da perturbação não trará obviamente resultados positivos. O diagnóstico erróneo poderá ser bastante danoso, pois vamos tratar um problema que a criança não possui e negligenciar aquilo que realmente a afeta negativamente.

Além disso, e caso a perturbação seja corretamente diagnosticada, enquanto pais e cuidadores dessas crianças não podemos descartar as nossas responsabilidades na criação de condições ótimas para o desenvolvimento das mesmas.

A intervenção farmacológica (apesar de necessária e não desvalorizando a sua relevância) não é eficaz a longo prazo. O tratamento da Perturbação de Hiperatividade com Défice da Atenção envolve uma abordagem múltipla que passa também por um processo psicoterapêutico de intervenção direta com a criança e não menos importante ainda uma intervenção psicossocial com os pais e cuidadores. Esta intervenção é fundamental para a diminuição dos sintomas, promoção do bem-estar e pleno desenvolvimento da criança, e como tal, é essencial que todos os intervenientes neste processo unam esforços neste sentido.

Não faça diagnósticos ou crie rótulos para comportamentos comuns como brincar, correr e saltar! Pelo contrário, faça o seu filho feliz, crie regras, um ambiente estruturado e condições ótimas para o seu desenvolvimento. Evite problematizar comportamentos que são normais.

E não esqueça que a medicação, apesar de indispensável em muitos tratamentos, não é por si só uma resolução e não cria competências. Ninguém além de você poderá dotar-se das condições e capacidades necessárias para a superação das dificuldades.