Vem À Quinta-Feira

de Filipa Leal

Assírio e Alvim – 2016

 

 

«Vem à Quinta-Feira

 

Vem à quinta-feira

 

É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja

ao cair da tarde, enquanto planeamos a viajem a Paris. E se Paris

for muito caro – sei que isto não está fácil – podemos ir a

            Guimarães

assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.

 

Vem à quinta-feira.

 

A seguir, temos ainda a sexta e talvez me esperes à porta do

            emprego,

e talvez fiques para sábado e domingo, e talvez o mundo pare

de acabar tão depressa.

 

Vem à quinta-feira.

Mas não venhas nesta, vem na próxima.

Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um

            compromisso

profissional – sabes que isto não está fácil – e talvez nos dê

            hipótese de irmos

a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima que eu preciso de

            tempo

para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,

para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.

 

Vem à quinta-feira e não te demores.

Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista

(sabes como gosto de pensar em tudo

ao mesmo tempo)

e afinal o que me falta fazer contigo não é caro:

– viajar de autocaravana,

– dançar na estrada nacional,

– ver-te chorar.

Choras tão pouco. Ainda em que estás contente.

 

Vem à quinta-feira.

 

Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.

Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as

            fiteiras,

eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona.

Já estive a aprender no youtube como se faz uma cabana.

Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.

Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona

            com a mordeu-me

– ou, pelo menos, é o que diz o youtube.

 

Temos tanto ainda para fazer.

Por isso, se algum dia voltares, meu amor, vota numa quinta.»

 

 

Para onde vão os pedaços de vida que te são arrancados?

 

Porque teimas, labirinto, em adiantar-te aos meus passos? Aquela luz, além, é o fim?

 

Como é amanhecer, diariamente, dentro de ti próprio? Que memória guarda o silêncio das tuas cicatrizes? Por que motivo as dissimulas com bases e pinturas de guerra?

 

entre o verde uma papoila __

contra a escuridão

canta uma cigarra.

 

José Rui Rocha

 

Vem à Quinta-Feira

Filipa Leal

https://www.wook.pt/livro/vem-a-quinta-feira-filipa-leal/17228400