As cruzadas vistas pelos árabes

de Amin Maalouf

Tradução de G. Cascais Franco

Difel – 1990

 

excerto:

            «”Não sei se é um pasto de animais selvagens ou a minha casa, a minha morada natal!”

 

            Este grito de aflição de um poeta anónimo de Maara não é uma simples figura de estilo. Somos infelizmente forçados a tomar as suas palavras à letra e a interrogar-nos com ele: o que se passou afinal de tão monstruoso na cidade síria de Maara neste final de ano de 1098?

            Até à chegada dos Franj, os habitantes viviam sossegadamente ao abriga da sua muralha circular. Os seus vinhedos, tal como os seus campos de oliveiras e figueiras, proporcionavam-lhes uma modesta prosperidade. Quanto aos negócios da sua urbe, eram geridos por probas individualidades locais sem grande ambição, sob a suserania nominal de Redwan de Alepo. O orgulho de Maara consistia em ser a pátria de um dos maiores vultos da literatura árabe, Abul-Ala al-Maari, falecido em 1057. Este poeta cego, livre-pensador, ousara increpar os costumes da sua época, sem cuidar dos interditos. Era preciso audácia para escrever:

            “Os habitantes da terra dividem-se ao meio,

Os que têm um cérebro, mas nenhuma religião,

E os que têm uma religião, mas nenhum cérebro.”

 

            Quarenta anos após a sua morte, um fanatismo vindo de longe iria dar aparentemente razão ao filho de Maara, tanto pela sua irreligião quanto pelo seu lendário pessimismo:

            “o destino espedaça-nos como se fôssemos de vidro,

e os nossos cacos nunca mais se ressoldam.»

 

Que nova dramaturgia é esta que ansiosa verseja o desaprender do Tempo, da Memória, do Silêncio?

Não será um homem toda a humanidade e toda a humanidade um homem?

O que entendes por intervir? As tuas feridas sangram acaso, imprevidência ou convicção?

 

reconciliei-me

c’o meu pior adversário

caminhando só.

 

 

José Rui Rocha