POR OUTRO LADO

[um haiku e três questões a … ]

#6

Julio Cortázar – Aulas de Literatura. Berkeley, 1980

de Julio Cortázar

Tradução de Miguel Filipe Mochila

Cavalo de ferro – 2016

 

excerto:

            «Agora há quem escreva teses sobre Boris Vian, coisa que no seu tempo lhe teria provocado um ataque de riso, porque lhe pareceria absolutamente inacreditável que ele próprio pudesse ser alguma vez tema de uma tese. Nesse sentido, sinto-o uito próximo e volto sempre a lê-lo.

 

            Aluna: Não influenciou a sua obra?

 

            Não me parece, mas não é ao escritor que cabe ocupar-se das influências, porque é quase sempre incapaz de as reconhecer. Um escritor sabe quando está a imitar, isso sim: os imitadores têm sempre um grande peso na consciência. Todos os pequenos Borges, os pequenos Roa Bastos, os pequenos Sabatos vivem um pouco escondidos, porque sabem perfeitamente que estão a imitar e fazem-no porque confiam em que, dê por onde der, essa imitação produzirá alguma coisa boa, alguma vez (normalmente isso não acontece). A influência é algo muito diferente da imitação: a influência é algo que pode surgir por uma via totalmente inconsciente e são os críticos que quase sempre descobrem as verdadeiras influências que um escritor pode ter. Talvez um dia um crítico demonstre claramente a influência que Boris Vian terá exercido sobre mim.»

 

Como decides os teus mestres? Nas tardes felizes em que caminhas sozinho que mãos ecoam na tua mão?

 

A literatura como oportunidade de multiplicação óptica: uma geografia indecidível onde te pensas de dento para fora e de fora para dentro. De onde vem a cor dos teus sonhos?

 

Talvez o leitor seja Dédalo, Teseu e Minotauro no labirinto de si mesmo. Que desenovelados rastos desenham os teus passos nos mapas das tuas decisões?

 

 

à entrada do livro

há um cabide à direita.

desnuda-te e segue.

 

José Rui Rocha