Abertura do ciclo de debates do projecto comunitário Erosão.

Paisagem, silêncio, movência e sonho

– para uma cartografia da viagem –

 

“(…) Olhai, olhai, vão em manadas / Os emigrantes… (…) / Ao voar das últimas espr’anças / Crispam as mãos, mordendo as tranças, / Loucas de dor! // Lá vão levados, vão levados, / Pelo mar alto… (…) / Adeus, divinos horizontes, / Inda a cantar nos olhos seus!  / Adeus, manhãs doirando os montes! / Erva do campo, água das fontes, / Pr’a sempre adeus! // Lá vão levados, mar sem fundo, / Longe das noivas e dos pais!… / Terras, Jesus! nos fins do mundo… / Voltarão? Quando, mar profundo? (…)”

Guerra Junqueiro, Finis Patriae

 

No próximo dia 7 de Abril daremos início ao ciclo de debates do projecto comunitário Erosão. Este ciclo de encontros é uma das múltiplas actividades paralelas ao projecto Erosão.

 

Na abertura, contamos com a presença do Dr. Daniel Bastos, perseverante e profícuo investigador do fenómeno migratório para, sob o tema: “Paisagem, silêncio, movência e sonho – para uma cartografia da viagem” partilharmos perspectivas e problematizarmos a questão desta complexa conjugação de Ir.

 

Como coordenadas teremos as fundamentais do argumento do filme Erosão. O seu grande e trágico motor é a vincada, ácida, persistente e dolorosa presença de uma ausência. Ou seja, o filho inominado, o nómada, o errante, aquele que não está é constantemente evocado pelos pais, pela noiva, inclusive nos silêncios que cumprem. Paira em todo o lado como um fantasma (em)possível. Mas não se pense que aos olhos dos pais, Tio António e Tia Guilhermina, esta vontade de errância seja admitida como emigração. Não. A partida do filho é incompreensível, diríamos: inadmissível. Sequer se questionam das razões, desejos, sonhos que o levaram. (“ – Casar-se um homem, trabalhar a vida inteira de sol a sol já por causa dele, vê-lo nascer, criá-lo, e, por fim, por aqui me sirvo: marinheiro! As terras que as granjeie o velho, o galego. Ele, borga pelo mundo a cabo! Badana!”( Torga, 1960:22) Admissível, para ambos, é o movimento que busca a ‘Terra Prometida’, não o movimento de uma procura de si, mas aquele que concebe proveito material. (“ – Mundo era se fosse no Brasil ou na América a esgadanhá-lo!… Olha como o Alfredo do Joaquim manda dinheiro! Ao menos já não se perdia tudo! Mas metido num barco, de mar em mar, hoje aqui, amanhã no inferno, dá esperanças!” ( Torga, 1960:25) Apesar de tudo, vivem suspensos à espera de seu regresso, celebrando diariamente essa utopia, esse refluir. Também aqueles que partem o fazem assentes numa esperança utópica, na experiência de um Tempo de Paraíso, no acontecer numa Paisagem Ideal.

 

Ao falarmos de viagem, emigração, esperança e utopia, ao atendermos o enraizamento, as convicções e desejos dos que ficam, temos consciência de que tratamos de conceitos embrenhados na identidade fafense. Celebrar este texto é, portanto, celebrar também a comunidade que acolhe o projecto. Questionar o texto é questionar essa comunidade. Conhecê-lo é conhecer a comunidade. Cumpri-lo é cumprir a comunidade.

 

Contactos:

erosaoprojetocomunitario@gmail.com

@filmeerosao