Enquanto grupo comunitário, o EnfimTeatro, desenvolve actividade num processo contínuo há três anos, processo este gerador de consequências e transformações incontestáveis e substanciais na geografia envolvente. O EnfimTeatro tem como objectivos capitais o desenvolvimento, formação, divulgação, produção e acção artística, cultural e educativa, patente em projectos que visam igualmente impulsionar e facultar recursos para um melhor progresso de arte e artista, mas sobretudo um mais amplo, exigente e democrático acesso à cultura, isto sempre em relação com a comunidade, a sua memória, património, as suas necessidades e anseios. Assim tem sido e assim se propõe no futuro.

O projecto EROSÃO encontra-se em desenvolvimento desde o primeiro trimestre de 2017, ano em que se comemoram os 110 anos do nascimento de Miguel Torga. Ainda nesta perspectiva, e sempre com sério sentido de homenagem, valorização patrimonial e disseminação da obra do autor, foi estabelecido o ano de 2020 como data para o lançamento do filme EROSÃO uma vez que, precisamente nesse ano, se celebrarão os 25 anos da morte de Miguel Torga.

No projecto Erosão, a comunidade é protagonista – o teatro comunitário é uma experiência de colocar em jogo e de tomada de consciência colectiva: não é um lugar onde se fazem considerações, mas onde se vê, se escuta, se actua.

Na génese do mesmo, definimos como passo fundamental à sua realização o estabelecimento de uma rede cultural, digamos assim, através da parceria e colaboração entre diversas comunidades, colectividades e grupos representantes de diferentes freguesias do concelho de Fafe, multiplicando deste modo o número de recursos, agentes intervenientes, comunidades envolvidas e ampliando as fronteiras das suas consequências e a diversificação de caminhos, e consequentemente de sentidos.

No projecto Erosão, termos como viagem, emigração, esperança e utopia são pilares fundamentais da estrutura do argumento do filme, são presença constante nos diálogos e silêncios do texto. Por outro lado, atendê-los, é também atender ao enraizamento, às convicções e desejos dos que ficam.

O grande e trágico motor de Erosão [à imagem do drama ‘Terra Firme’] é a vincada, ácida, persistente e dolorosa presença de uma ausência. Ou seja, o filho inominado, o nómada, o errante, aquele que não está é constantemente evocado pelos pais, pela noiva, inclusive nos silêncios que cumprem. Paira em todo o lado como um fantasma (em)possível. Mas não se pense que aos olhos dos pais, Tio António e Tia Guilhermina, esta vontade de errância seja admitida como emigração. Não. A partida do filho é incompreensível, diríamos: inadmissível. Sequer se questionam das razões, desejos, sonhos que o levaram. (“ – Casar-se um homem, trabalhar a vida inteira de sol a sol já por causa dele, vê-lo nascer, criá-lo, e, por fim, por aqui me sirvo: marinheiro! As terras que as granjeie o velho, o galego. Ele, borga pelo mundo a cabo! Badana!”( Torga, 1960:22) Admissível, para ambos, é o movimento que busca a ‘Terra Prometida’, não o movimento de uma procura de si, mas aquele que concebe proveito material. (“ – Mundo era se fosse no Brasil ou na América a esgadanhá-lo!… Olha como o Alfredo do Joaquim manda dinheiro! Ao menos já não se perdia tudo! Mas metido num barco, de mar em mar, hoje aqui, amanhã no inferno, dá esperanças!” ( Torga, 1960:25) Apesar de tudo, vivem suspensos à espera de seu regresso, celebrando diariamente essa utopia, esse refluir. Também aqueles que partem o fazem assentes numa esperança utópica, na experiência de um Tempo de Paraíso, no acontecer numa Paisagem Ideal.

Ao falarmos de viagem, emigração, esperança e utopia, ao atendermos o enraizamento, as convicções e desejos dos que ficam, temos consciência de que tratamos de conceitos embrenhados na identidade fafense. Celebrar este texto é, portanto, celebrar também a comunidade que acolhe o projecto. Questionar o texto é questionar essa comunidade. Conhecê-lo é conhecer a comunidade. Cumpri-lo é cumprir a comunidade.

 

Como já referimos o projecto comunitário Erosão conta com a colaboração de diversas instituições, associações e grupos comunitários. É, portanto, um projecto desenvolvido em rede cultural. Ao falarmos em projecto comunitário admitimos que o mesmo é simultaneamente intervenção social, cultural e artística. Os processos social e cultural estão intimamente ligados e reconhecem-se um na verdade do outro: só o cumprimento dos dois níveis permite a plenitude da experiência. Este tipo de projecto embrenha-se na comunidade: dispõe-se às suas metamorfoses, linguagens, hábitos e tradições, compromete-se com as suas virtudes e dificuldades. Dito de outro modo: está vinculado com a paisagem, o património (material e imaterial), as pessoas, enfim, a Cidade.

 

Quando referimos tradições, memória, identidade e património referimos “cantares dos reis”, do “entrudo”, do “compasso” – os três grandes motores que Torga diluiu nos três actos do texto que nos serve de estrutura dramatúrgica – mas mais, muito mais: falamos de práticas, problemas, fronteiras, e sobretudo valores que transformam as comunidades e as consolidam, as ideiam. Falamos de migrações e da sua complexidade. Falamos igualmente em registar a paisagem – o património natural, o rosto natural do concelho – e a sua ruralidade. Não como facto museológico, excêntrico, episódico, mas como característica vital, como arquétipo edificante e identitário. Deste modo, propomo-nos à observação do invisível, à atenção ao dentro da cidade, à escuta e fruição do(s) seu(s) silêncio(s). Dito de outro modo: observaremos o silêncio que a envolve e que a é, do vibrante invisível que há no dentro-devir do espaço à espera de ser visto, imaginado (criado como imagem), construído.

 

Aproveitamos para relembrar que, até à data, juntamente com o grupo comunitário EnfimTeatro – S.R. Cepanense – produtor do projecto – colaboram ainda instituições e grupos tão diversos quanto: Cineclube de Fafe; Casa do Povo de Cepães – Rancho Folclórico; Museu N.ª S.ª de Guadalupe (Cepães); Ass. Rumo ao Futuro (Travassós); Ass. Leões do Ferro (Fafe); Coro de pais e amigos da Academia de Música José Atalaya (Fafe); ARCO Sto. Ovídio (Fafe); Ass. Restauradores da Granja (Fafe); Ass. Atriumemória (Fafe), e ainda, uma vez que nelas será rodado parte do filme, privilegiando a sua paisagem, aldeamentos, pessoas e património, as paróquias de Cepães e Arões S. Romão, bem como as freguesias de Cepães e Fareja, Fafe, Arões (S. Romão) e Travassós. Mas esperamos ser mais.